Entre estudar e trabalhar sem folga, bolsa de R$ 700 muda rotina na faculdade

Colegas têm 18 anos, moram na mesma cidade e cursam Matemática na UEMS, mas têm dias bem diferentes

Cassia Modena / Campo Grande News


Nas aulas de Matemática, duas estudantes precisam resolver cálculos parecidos. Fora delas, a conta é diferente: uma concilia a faculdade com dois trabalhos; a outra conseguiu deixar o emprego com a ajuda de uma bolsa de estudos.

Aos 18 anos, elas estudam para se tornarem professoras na UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), em Cassilândia, mas dispõem de tempos bem diferentes para aprender.

Mariana Cavassani trabalha no comércio durante o dia, estuda à noite e passa parte dos fins de semana numa lanchonete, onde o expediente vai das 18h à 0h30. Heloísa Silva de Souza deixou o trabalho como secretária depois que passou a receber o Pé-de-Meia Licenciaturas. Os R$ 700 disponíveis para saque a cada mês ajudam nas despesas de casa e permitem dedicar mais tempo ao curso.

No caso de Mariana, a jovem tentou conseguir bolsas de estudo para não ter que trabalhar tanto e se dedicar mais ao curso, entre elas o Pé-de-Meia Licenciaturas, do governo federal. O benefício é pago desde o ano passado para universitários que atendam a requisitos, sendo um deles ter tirado nota mínima de 650 no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Contudo, o resultado na prova garantiu a matrícula na universidade pública, mas não foi suficiente para conferir direito ao Pé-de-Meia. A futura professora também não teve sucesso, ainda, na seleção para as bolsas ofertadas pela própria instituição pública onde estuda.

História diferente - Amiga de Mariana e estudante do mesmo curso, Heloísa Silva de Souza, 18, trabalhou durante o Ensino Médio como secretária para ajudar a mãe a pagar as contas da casa. As duas moram sozinhas numa casa cedida pelo avô.

A jovem trabalhava por meio período até poder largar o emprego, este ano, pois passou a receber os R$ 700 mensais previstos no Pé-de-Meia Licenciaturas.

A parcela a ajuda a pagar a fatura de internet residencial e a fazer compras no supermercado, principalmente. Além disso, permite ter tempo para fazer as atividades da faculdade, estudar para as provas e se integrar à universidade nos períodos em que não há aula.

'Eu já queria ser professora, mas quando o benefício surgiu, ele me incentivou a focar para entrar na universidade. Hoje, vejo vários colegas que não conseguiram nenhuma bolsa trabalhando o dia inteiro, chegando cansados na aula. Acaba sendo bem difícil para eles. Me sinto privilegiada diante disso', relata Heloísa.

O desempenho é mesmo diferente, confirma Mariana. Ela conta que, na semana passada, chorou pela falta de tempo para entregar uma avaliação. 'Eu acho que a maioria dos estudantes brasileiros trabalha e enfrenta essa realidade, faz parte', diz. A estudante acredita que está recuperando um déficit de aprendizado em Matemática por trabalhar desde os 14 anos e ter concluído o ensino básico no período noturno.

A universitária disse que não vai desistir de tentar ser aprovada em alguma bolsa. 'Não posso deixar os meus trabalhos porque meus pais não têm condições de me manter, justamente porque faltou oportunidades para eles. Ano que vem vou ficar mais atenta aos prazos, apesar de ser muito ocupada, e me inscrever em outros editais', afirma.

Fora as bolsas institucionais, outras opções são o programa MS Supera do governo estadual e programas do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Capes de linhas diversas ao Pé-de-Meia.

Números - Segundo dados públicos da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), o total de 14.139 estudantes pelo Brasil recebe Pé-de-Meia Licenciaturas, atualmente.

Em Mato Grosso do Sul, o número é 108, sendo 57 na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), 31 na UEMS, 19 na UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) e 1 no IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul).

O programa - São pagos R$ 1.050 por mês a estudantes de cursos presenciais de formação de professores. Desse total, R$ 700 ficam disponíveis para saque imediato e R$ 350 são depositados em uma poupança, liberada futuramente mediante cumprimento das regras do programa.

Para participar, o estudante precisa ter média igual ou superior a 650 pontos no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e ingressar em uma licenciatura presencial pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada), Prouni (Programa Universidade para Todos) ou Fies (Fundo de Financiamento Estudantil).

O candidato também precisa cadastrar o currículo e fazer a pré-inscrição na Plataforma Freire. Neste ano, o procedimento segue em fluxo contínuo até 19 de dezembro, enquanto houver vagas.

Para não ter o benefício cortado, o bolsista deve manter matrícula ativa e cursar pelo menos duas disciplinas por semestre. Na renovação anual, também precisa alcançar média igual ou superior à exigida pela instituição para aprovação. Quem não atingir esse desempenho poderá manter a bolsa se comprovar participação em atividades acadêmicas ligadas à formação docente, como iniciação à docência ou científica, extensão, tutoria e monitoria.

A transferência de curso provoca o desligamento do programa. A reintegração é possível caso o estudante ingresse novamente em uma licenciatura pelo Sisu, Prouni ou Fies e continue atendendo aos critérios.

Os R$ 350 reservados mensalmente não são liberados automaticamente após a formatura. Para sacar o valor acumulado, o beneficiário precisa concluir a licenciatura e ingressar como professor em uma rede pública de educação básica em até cinco anos. Os que receberem a bolsa durante quatro anos, por exemplo, podem acumular R$ 16,8 mil em depósitos, considerando 48 parcelas de R$ 350.

O Pé-de-Meia Licenciaturas foi lançado em janeiro de 2025 como parte do Mais Professores para o Brasil. A iniciativa busca atrair estudantes com bom desempenho no Enem para as licenciaturas, reduzir a evasão e estimular o ingresso de novos professores nas redes públicas de ensino.


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