
Editorias / Policial
Recusa em matar o próprio gato foi 'estopim' da morte de Lívia em MS
Adolescente de 13 anos foi vítima de homicídio manipulado pela internet
Correio do Estado / Leo Ribeiro
Desdobramentos sobre o caso Lívia, divulgados hoje (06) pela Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA) do Mato Grosso do Sul, mostram que a recusa em matar o próprio gato teria sido o 'estopim' da morte da adolescente de 13 anos que teve o homicídio manipulado por grupos de ódio através da internet.
Conforme repassado pela titular, Anne Karine Sanches Trevizan Duarte, durante coletiva de imprensa na sede da Depca na manhã desta quinta-feira (06), a morte de Lívia havia sido inicialmente reportada como suicídio, revelou-se após investigação com a colaboração do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) que se tratava de fato de um homicídio resultante de manipulação feita por organização criminosa no ambiente online.
Entre os acusados das práticas contra Lívia, cinco adolescentes e um adulto foram identificados como autores, atuando em diversas localidades do país, como:
- Rio de Janeiro,
- Fortaleza,
- Minas Gerais,
- Pará e
- Mato Grosso do Sul
Várias são as terminologias usadas internamente entre os envolvidos, que reúnem-se nas chamadas 'panelas' para prática dos crimes virtuais. Antes disso, porém, os adolescentes acusados revelaram após apreensão que há toda uma 'engenharia social' para cooptar as vítimas para exploração nas redes sociais.
Uma vez sob controle dos criminosos, segundo a delegada, a recusa em matar o próprio gato teria sido o ponto final para que a morte da adolescente fosse decretada pelos indivíduos, prática essa identificada na Operação Lívia e em outras investigações como vínculo entre vítimas e os autores responsáveis: a violência praticada também contra animais.
'A Lívía antes de se matar ela tinha que fazer o que eles chamam de 'Luz', que é a agressão. Ela tinha que matar o gato dela e não cumpriu o que deveria ter cumprido. É como se eles estivessem jogando um videogame... tem que passar de fase', explica a delegada.
Entenda
Encontrada sem vida na manhã de 22 de julho, em Naviraí, aos 13 anos Lívia foi incitada ao autoextermínio por grupos extremistas, caso esse registrado distante aproximadamente 365 quilômetros da Capital do Mato Grosso do Sul.
Nesta última terça-feira (04) a Operação Livia foi deflagrada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, através da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), em conjunto com o Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça e Segurança Pública (Senasp/MJSP).
Por meio da coordenação nacional da Depca, foram cumpridas de forma simultânea, seis medidas de busca e apreensão contra adolescentes e um mandado de prisão contra um adulto.
Ainda conforme divulgado hoje (06) pela delegada Anne Karine Trevisan, a investigação identificou que essa organização criminosa que opera em ambiente virtual é coordenada principalmente por adolescentes, sendo que o próprio único adulto preso nesta operação teria 18 anos e, portanto, praticava os crimes antes da maioridade penal.
Operando de forma anônima, esses acusados sequer saberiam as identidades ou localizações reais uns dos outros, criando inclusive perfis falsos com fotos de pessoas de outro sexo para conseguir atrair as vítimas.
'Então eles começam a procurar pela família; onde estuda, e diante de todas aquelas informações, se passa por outra pessoa. E importante frisar que nenhuma rede social dessas pessoas condizia com a foto delas. Era sempre outro tipo de pessoa, de sexo, realmente para conseguir trazer a vítima'. Como confirmado pela Depca, adolescentes e também crianças foram cooptados para serem vítimas dessa rede criminosa.
'Existem crianças vítimas também, nós constatamos isso. Nessa noite que teve esse 'evento', porque é assim que eles chamam dentro dos grupos nomeados por eles de 'panelas', ocorreu uma automutilação. Logo na sequência que é divulgado esse suicídio, porque não houve moderação, houve falha na plataforma Discord que não foram derrubados, teve essa automutilação em outro Estado', comenta a titular da Depca.
Segundo explicação dada pela delegada, é como se os administradores de cada 'panela' se tornassem os donos de cada uma dessas vítimas.
'E ela começa a sofrer muitas ameaças. Acredita que vai acontecer alguma coisa com ela, então passa a se automutilar, até cometer o suicídio'.
Ainda, Anne Karine Trevisan afirma que os indivíduos relacionados com a morte da Lívia já foram todos identificados, e que inclusive um dos 'chefes' da organização teria apenas 14 anos, apreendido na Baixada Fluminense (RJ), mas que diligências ainda seguem em curso para identificação de demais 'panelas'.
A delegada esclarece que esse não teria sido o caso de Lívia, mas há vítimas que se cortavam e tinham que escrever o nome do administrador 'dono' com o próprio sangue.
'Para mostrar: 'eu sou de fulana de tal', porque elas eram obrigadas a fazer isso, porque elas estavam acreditando que vai acontecer algo', comenta.
Como bem esclarece a respeito da 'engenharia social' dos criminosos, muitas vítimas era alvos do chamado 'doxxing', que seria a busca e exposição de dados particulares de uma pessoa na internet sem a devida permissão dela.
Nessa prática criminosa, o objetivo costuma ser a busca por aterrorizar, envergonhar ou ameaçar a vítima com a exposição de dados que podem incluir nome real, endereço, CPF, telefone, etc.
'A Lívia mesmo, antes de tomar a decisão de realmente se matar, ela tinha sido 'doxada' por esses adolescentes, e isso exercia muita ameaça, porque estavam envolvidas ali a família, então ela não sabe o que vai acontecer, se 'é só comigo', 'é pra minha família também', então ela acabou tirando a vida após essa pressão', afirma.
Símbolos supremacistas e neonazistas
Além de toda sorte de equipamentos eletrônicos que ainda devem passar por perícia técnica especializada, como celulares, computadores, etc., os agentes localizaram também durante a Operação Livia diversos itens que têm ligação com grupos extremistas e discursos de ódio na casa de um dos adolescentes.
Imagens divulgadas pela Polícia Civil do Mato Grosso do Sul mostram que, entre as localidades alvo dos mandados, um dos adolescentes suspeito pelo envolvimento no crime ostentava toda uma indumentária aparentemente neonazista.
Entre as apreensões, foi encontrada uma versão da conhecida Bandeira Confederada, facas táticas e até uma arma de fogo.
'Eles têm um ódio em si, não é só dessa apreensão não (comenta a delegada sobre os itens neonazistas apreendidos). Têm dentro deles isso, ódio pela mulher, raça', diz.
Além dos indivíduos que competiam entre as 'penelas' por 'hype', hierarquia de popularidade essa medida através de atos de violência cada vez maiores, que davam status para os integrantes que inclusive repassavam o passo a passo para as vítimas 'do que' e 'como' fazer, alguns dos alvos vitimados recebiam bonificações conforme avançavam no 'jogo' ao cumprirem os atos de 'luz'.
'É um desconsiderar da vida humana assim, de forma absurda. Eles têm satisfação com esse resultado, é uma frieza com várias pessoas assistindo e incentivando que praticasse a automutilação e, em outros casos, a morte mesmo em si', conclui.
Comentários

Primeira página


