Esquema de corrupção furou fila de 25 mil pessoas à espera de exames

Operação Gutenberg desmantelou organização criminosa que prometia vagas no SUS em troca de contratos fraudulentos

Correio do Estado / Felipe Machado


O esquema de corrupção que prometia vagas no Sistema Único de Saúde (SUS) em troca de contratos fraudulentos conseguia furar a fila de atendimento de cerca de 25 mil pessoas que esperam por exames em Mato Grosso do Sul.

A fila era mediada pelo coordenador estadual de Regulação Assistencial do Complexo Regulador Estadual (Core) da Secretaria de Estado de Saúde (SES) para favorecer seis municípios sul-mato-grossenses.

Na terça-feira, o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) deflagrou a Operação Gutenberg, que desmantelou uma organização criminosa voltada à prática de crimes em licitação, corrupção ativa, corrupção passiva, além de lavagem de capitais e outros delitos correlatos.

Conforme o Correio do Estado havia apurado, um dos principais responsáveis por fazer o esquema dar certo era Ed Carlos Britto Burgatt, que usava seu cargo como coordenador estadual de Regulação Assistencial para articular vantagens para prefeituras.

Em troca das vagas de internação, cirurgias e exames, era solicitado que uma empresa parceira fosse contratada pela administração municipal para “fornecimento de livros paradidáticos”, uma cortina de fumaça para dividir os lucros do contrato assinado.

As empresas suspeitas são a Gráfica Alvorada e a Editora Avante (Souza & Fanaia Comércio de Livros e Serviços Editoriais Ltda.).

“Constatou-se, dentre as várias frentes de atuação, que o esquema criminoso se valia da influência de servidores cooptados na área da saúde pública para condicionar a autorização de exames, cirurgias e até vagas de leitos em hospitais pela rede estadual à aquisição de livros vendidos pelo grupo. Importante destacar que a organização criminosa seguia operando até os dias atuais com contratos ativos em vários municípios”, explica o órgão em nota.

Conforme um levantamento de fevereiro de 2024 realizado pelo MPMS, mais de 25 mil pessoas aguardavam a realização de exames na saúde pública estadual, como tomografia computadorizada, ressonância magnética (com e sem sedação), eletroneuromiograma e radiografia simples, o que resultou em uma ação civil pública contra o Estado e o Município de Campo Grande.

Perguntado sobre dados atuais, o MPMS afirmou que, por não haver transparência nas filas de espera, tanto de exames como de cirurgias, o órgão não tem essa atualização, apenas o levantamento feito para a ação.

ESQUEMA

Estima-se que seis administrações municipais participavam deste esquema: Campo Grande, Dourados, São Gabriel do Oeste, Caarapó, Corguinho e Porto Murtinho. Também tiveram ações policiais em São Paulo (SP) e Abadiânia (GO).

Ao todo, foram 16 mandados de prisão preventiva e 43 mandados de busca e apreensão.

Além de Ed Carlos Burgatt, há a confirmação de que foram presos Rossana Jafar, Olívia Jafar, Felipe Paroschi Jafar, Joatan Gomes Peixoto, Matheus Oliveira Peixoto, Francisco Anizio dos Santos, Paulo Rogerio de Melo e Jéssica Burgatt, filha do coordenador do Core.

Essas pessoas conseguiram subtrair dos cofres públicos cerca de R$ 27 milhões com o esquema.

Um dia depois da operação, Ed Carlos foi dispensado da Função de Confiança Executiva (FCE-02) que exercia na SES. Felipe Jafar, que ocupava cargo em comissão de Assessor II (CCA-08) na Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul), também foi exonerado.

O ato prevê, caso seja servidor efetivo, a recondução ao cargo de origem.

Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior, conhecido como Júnior Vasconcelos, ex-prefeito de Fátima do Sul e que atualmente ocupa cargo no gabinete do deputado estadual Jamilson Name (PP), também foi alvo da investigação.

Ontem ele foi afastado do cargo de escrivão da Polícia Judiciária, pertencente ao quadro efetivo da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).

O prazo da suspensão durará o tempo em que perdurar a medida cautelar. Foi determinado o recolhimento da arma, da carteira funcional e dos demais pertences do patrimônio público destinados ao policial, além da suspensão de senhas e de logins de acesso aos bancos de dados da instituição policial, como o sistema Sigo e Infoseg, e suspensão de férias.

Nos últimos dois dias, com a realização das audiências de custódia, todos os presos tiveram suas prisões mantidas pela Justiça.

RELATOS

A aposentada Shirley Ferreira, de 83 anos, esteve no Centro Especializado Municipal (CEM) de Campo Grande na tarde de ontem para uma consulta com o urologista.

Mesmo que o atendimento dessa vez tenha sido rápido, ela conta que em momentos anteriores já precisou discutir para ser atendida após quebrar o braço e o quadril.

“Passei muita raiva, tem que partir para a ignorância. Quando eu quebrei o braço, o ombro e o quadril, ele [o marido] foi marcar exame e ninguém quis atender ele. Eu tive que ir lá a pé, de bengala, e falei para moça: ‘Você não gosta de idoso? Dá o seu lugar para outro’. Quando eu falei as verdades para ela, aí ela atendeu”, desabafa a idosa.

Um dia depois de sofrer um acidente de moto, Alisson Manoel, de 22 anos, também esteve no centro médico para tentar realizar um raio-X no cotovelo. Mesmo depois do encaminhamento ao CEM, ele não foi atendido e não havia previsão de quando o procedimento aconteceria.

“Eu cheguei às 9h lá na UPA [Unidade de Pronto Atendimento], fiquei aguardando 3 horas para ser atendido e poder solicitar de novo o raio-X. Depois, peguei o encaminhamento, para poder vir aqui para o CEM, mas parece que não está marcado, é aguardar. Até agora, ninguém me passou nenhuma previsão”, relatou.

* SAIBA

Os R$ 27 milhões levantados pela organização durante o esquema foram pulverizados entre seus integrantes, servidores corrompidos e diversas pessoas físicas e jurídicas, com o fim de ocultar e dissimular a sua origem ilícita, segundo o Gaeco.


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