Controladoria suspeita que Santa Casa usa recurso do SUS em plano privado

A falta de transparência e o cruzamento entre a estrutura pública e a particular são alvo da investigação

Lucia Morel / Campo Grande News


Sem receber os documentos contábeis exigidos em auditoria, a CGE (Controladoria-Geral do Estado) passou a investigar a suspeita de que a ABCG (Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande) esteja utilizando recursos repassados pelo SUS (Sistema Único de Saúde) para custear operações de seu plano de saúde privado. A situação faz parte da investigação do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) referente à Operação Antidotum.

De acordo com o documento, a instituição hospitalar detém quase a totalidade do capital da operadora, mas evitou entregar os balanços consolidados aos fiscais, dificultando o rastreamento do dinheiro. 'Além de comprometer a confiabilidade dos demonstrativos da situação financeira da Santa Casa e da Operadora Santa Casa Saúde, (...), esse fato corrobora as suspeitas de que a Operadora pode ter sido utilizada para desvio de recursos milionários'.

A falta de transparência e o cruzamento de estruturas entre o atendimento público e o privado ganharam destaque em um áudio interceptado durante a investigação, atribuído ao então gerente administrativo Alessandro Dias Junqueira. Em gravação anexada pelo Ministério Público, o gestor relata o funcionamento interno e menciona que pacientes atendidos pelo plano privado ou pelo pronto-socorro poderiam estar sendo faturados indevidamente pelo SUS.

No diálogo, Alessandro afirma que a presidente da instituição, Alir Terra Lima, precisava voltar sua atenção para a operadora de saúde e alerta que a gestão interna operava em meio a sobreposições de atendimento, pontuando que 'a gente recebe paciente no pronto-socorro, a gente recebe paciente do privado e fatura pelo SUS, entendeu? E às vezes a gente cobra do paciente'.

Além disso, trecho de relatório da controladoria, detalha que 'foi identificado que os funcionários da Associação são beneficiários do plano de saúde operado pela Operadora de Plano de Saúde Privado da Santa Casa de Campo Grande, gerando transações significativas entre as duas entidades.'

A ofensiva policial cumpriu seis mandados de prisão preventiva, incluindo o da presidente Alir Terra Lima e de diretores, além de dezenas de buscas e apreensões em Campo Grande, Dourados e Goiânia.

A apuração do Ministério Público aponta que as fraudes em contratos e a manipulação de dados contábeis na Santa Casa geraram prejuízos iniciais estimados em R$ 4,9 milhões, enquanto os órgãos de controle tentam auditar o destino real das verbas públicas.


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