Editorias / Dia-a-dia
Solidão do filho autista inspirou mãe a escrever livro sobre amizade
Personagens mostram que diferenças não impedem afeto, convivência e vínculos verdadeiros
Clayton Neves / Campo Grande News
Quando o filho dizia que queria fazer uma festa de aniversário, mas não tinha quem convidar, a bibliotecária e escritora Raiza Franco percebeu que a maior dificuldade dele não era o diagnóstico de autismo, mas a falta de amigos.
Segundo ela, a dor de ver o adolescente querer uma amizade e não conseguir encontrar foi o impulso que transformou a história da família em livro infantil. Em 'Um Mundo Especial', ela ensina de forma lúdica que crianças autistas também querem brincar, conversar e fazer amigos.
Raiza conta que a maternidade chegou de forma inesperada. Casada aos 20 anos e com dificuldades para engravidar, ela acreditava que precisaria de tratamento quando decidisse ter filhos. No entanto, a gravidez aconteceu naturalmente, quando ela tinha apenas 21 anos.
Os primeiros sinais do autismo surgiram no primeiro ano de vida. “Ele não balbuciava, evitava ambientes com muita luz e barulho e tinha muita seletividade alimentar', detalha a mãe. Apesar disso, a família enfrentou diagnósticos equivocados em uma época em que os médicos conheciam pouco o autismo.
O primeiro médico afirmou que o menino tinha deficiência intelectual. Um segundo especialista chegou a dizer que o problema era a própria mãe. “Ele falou que eu estava procurando doenças no meu filho para fazer ele ser dependente de mim', pontua.
Inconformada, Raiza buscou uma terceira opinião e só após seis meses de avaliações com psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, veio o diagnóstico de autismo. 'Foi um alívio. Finalmente eu tinha um norte de como ajudar meu filho, em vez de continuar andando no escuro', lembra.
Desde então, a família passou a adaptar a rotina às necessidades de Kalel. Com acompanhamento terapêutico, medicação e muito diálogo dentro de casa, ele começou a falar aos quatro anos.
Hoje, aos 14 anos, o adolescente, consegue expressar os próprios sentimentos e enfrenta uma nova fase com os desafios da idade e as características do espectro.
E foi justamente observando outra dificuldade do filho que veio a ideia do livro. Apesar de gostar de conversar, abraçar pessoas e participar de festas, Kalel encontrava barreiras para fazer amizades. Muitas vezes, ele até iniciava conversas sobre seus hiperfocos, mas acabava sendo ignorado ou alvo de risadas.
A situação se repetia até mesmo no aniversário. 'Ele falava que queria fazer uma festa, mas não tinha quem chamar. Isso me doía muito', desabafa.
Para Raiza, esse sentimento é consequência de uma visão limitada sobre o autismo, que ajuda a espalhar a ideia de que pessoas autistas são frias, não gostam de contato físico ou preferem viver isoladas. 'No caso dele, é totalmente diferente. Ele adora abraçar, conversar e estar com outras pessoas. Cada autista é único, mas as pessoas acabam generalizando', afirma.
Hoje com 14 anos, Kalel inspirou as páginas da obra que mostra o mundo pelos olhos do filho, 'A maioria das pessoas acha que autistas preferem ficar sozinhos, no mundinho deles. Mas o que ele mais queria era ter um amigo para brincar, conversar e compartilhar o que gosta', conta.
Em vez de escrever um manual para adultos, ela decidiu conversar diretamente com as crianças, que ainda estão aprendendo a enxergar as diferenças.
Em 'Um Mundo Especial', todas as histórias foram inspiradas nos relatos do próprio Kalel e nada foi inventado. Nos cenários imaginários criados por ele, do fundo do mar ao planeta Marte, passando por monstros gigantes inspirados em Godzilla, o protagonista sempre procura novas amizades.
'O foco era mostrar que, independentemente de ser típica ou atípica, toda criança quer pertencer e fazer amigos', explica.
Para Raiza, a expectativa é que a obra ajude crianças a enxergarem o autismo para além dos diagnósticos. 'Eu queria que elas entendessem que eles não são frios, que não querem ficar sozinhos. Eles também sonham com amizades. E, às vezes, basta alguém dar o primeiro passo', finaliza.
Comentários

Primeira página


